Estilo de vida dos donos contribui para obesidade dos animais de estimação
Flávia Gianini
da Revista da Folha
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A
SRD Pretinha, 11, vivia como uma rainha. Encontrada nas ruas da zona
leste da capital, foi adotada pela administradora aposentada Ana
Prizon. Levada para o sítio da família, em Cabreúva (78 km de São
Paulo), a cadela costumava participar das confraternizações ao redor da
churrasqueira. "As pessoas sempre davam um pedacinho de carne para ela
nos churrascos", relata Ana.
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Entre tira-gostos e afagos, Pretinha chegou a 31 kg, quando o peso indicado para seu porte é de 20 kg.
Em uma consulta ao veterinário, o diagnóstico era visível:
obesidade. "Ela ficava ofegante e passava o dia deitada", lembra a
proprietária.
Além da picanha nos fins de semana (condenada pelos veterinários), a
cadelinha estava comendo muito mais que o recomendado também em dias
úteis. Três vezes por dia, era servida de porções de 200 g de ração.
"No total, ela comia mais de meio quilo e, às vezes, até repetia", diz
Ana.
| Jefferson Coppola/Folha Imagem |
O remédio contra o excesso de peso foi a adoção de uma dieta
controlada. Pretinha passou a ingerir no máximo 200 g diárias de ração,
divididas em várias porções pequenas ao longo do dia para aumentar a
sensação de saciedade.
Por recomendação veterinária, começou a fazer todos os dias
caminhadas leves durante 15 minutos. Em companhia da dona, anda por uma
pracinha próxima de casa, no parque São Lucas, zona leste. O sobrepeso da cadela mudou os hábitos da casa. Ana conta que não
permite que Pretinha fique na sala de jantar durante as refeições.
Nessas horas, a deixa trancada na área de serviço.
Para evitar ceder aos apelos do animal, a administradora também
baniu lanchinhos entre as refeições. "Foi uma mudança radical. Tenho o
peso adequado, mas faço dieta pela minha cachorra", afirma.
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A SRD Pretinha, que comia picanha, entre outros
quitutes,
e atingiu
31 quilos; veterinário diagnosticou obesidade e
prescreveu dieta |
A obesidade em animais de estimação é cada vez mais comum. Segundo a
professora Márcia Jericó, diretora do Hospital Veterinário da
Universidade Anhembi Morumbi, no Brasil, 17% dos cães estão bem acima
do peso. Nos EUA, esse índice chega a 44%. "É uma doença moderna que
avança rapidamente. Está diretamente relacionada ao estilo de vida nos
centros urbanos."
Assim como nas pessoas, vários fatores contribuem para a obesidade
animal: predisposição genética, sedentarismo e alimentação inadequada.
Algumas raças estão mais sujeitas ao acumulo de gordura, como os
labradores, pugs, buldogues e poodles.
"Donos desses cães têm que estar conscientes de que seus animais
precisam de maior quantidade de exercícios físicos e alimentação
regrada", explica o veterinário Mário Marcondes, do Hospital Sena
Madureira.
No caso de Pretinha, a castração a que foi submetida logo após a
adoção também contribuiu para o ganho de peso. Cães castrados
apresentam o dobro da probabilidade de se tornarem obesos,
especialmente as fêmeas. Elas deixam de produzir hormônios que atuam na
inibição do apetite, e passam a comer mais.
"A obesidade decorrente da castração é facilmente evitada. Basta que
o animal coma na medida certa e seja estimulado a se exercitar", diz
Mário. Existem no mercado rações próprias para animais castrados, com
teor calórico mais baixo que as tradicionais.
Excesso de fofura
Muitos donos de bichos de estimação precisam se convencer de que
gordura não é sinônimo de fofura. "As pessoas ainda têm a visão de que
bonito e saudável é o animal gordinho", constata Mário. O veterinário
diz que é mais comum no consultório ouvir reclamações sobre a magreza
dos pets --que, às vezes, os donos acreditam ser excessiva-- do que
sobre a gordura.
Márcia confirma: "A maioria dos donos só procura ajuda veterinária
quando o bicho apresenta complicações decorrentes da obesidade".
Da mesma forma que os seres humanos, os pets gordinhos estão
propensos a desenvolver hipertensão, diabetes e problemas no coração.
Saber a hora certa de procurar um veterinário pode salvar o bichinho.
Animais obesos vivem até três anos menos que aqueles que têm o peso
adequado.
Os veterinários ressaltam que, na maioria das vezes, os problemas de
obesidade dos pets estão diretamente relacionados ao comportamento do
dono. "Alguns proprietários transferem para seus animais hábitos pouco
saudáveis", diz Mário.
Entre eles estão a ingestão de petiscos entre as refeições,
compartilhar comida de gente com o bicho e pouca ou nenhuma atividade
física. Até petiscos próprios para animais devem ser controlados, pois
contêm muitas calorias.
Um biscoitinho para cães tem cerca de 90 calorias, um terço das necessidades diárias de um animal de porte médio.
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Arte/Revista da Folha |
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Doenças relacionadas
A obesidade animal também pode ser consequência de outros males. O
gerente de vendas Marco Aurélio Abreu, 33, sabia que dar comida de
gente para o poodle Tody, 5, era errado, mas algumas vezes cedia aos
apelos do cão. O animal também comia porções generosas de ração muitas
vezes por dia. "Quando saía para o trabalho, sempre lhe dava um
petisco."
Tody era constantemente "presenteado" com pequenos pedaços de pizza,
salgadinhos e bolachas durante as refeições em família. Bem acima do
peso e pedindo comida sem parar, foi levado ao veterinário. Na ocasião,
ele pesava 15 kg.
Sete a mais que o indicado para sua raça e porte. A causa da fome excessiva era um tumor na glândula adrenal.
Há seis meses em tratamento quimioterápico, o poodle perdeu três
quilos, mas ainda faltam quatro. A família corre atrás do prejuízo.
Tody segue uma dieta rigorosa, de apenas 170 g de ração light,
divididas em seis porções diárias, e faz caminhadas todos os dias.
O início do tratamento foi o período mais difícil, pois o cão não se
conformava com a nova dieta. "Ele arrastava a vasilha de comida durante
a madrugada, pedindo mais", conta Marco. Quando não está saciado, o pet
recebe folhas de alface em vez de biscoitinhos.
Marco confessa que, apesar de a doença ser a responsável pelo
apetite insaciável do poodle, a família acabou contribuindo para o
aumento de peso do animal. Infelizmente, eles só descobriram isso no
consultório do veterinário. "Achava que fruta era bom para cachorro,
mas descobri que tem muito açúcar."
Presente de grego
Um estudo comparativo feito na Alemanha investigou a relação entre
donos e animais obesos. O resultado apontou que a maioria dos
proprietários de cães obesos também estava acima do peso.
E o vínculo entre eles era mais forte que entre donos e animais de
peso normal. "Os gordinhos se colocavam no lugar dos bichos e
argumentavam que os amavam tanto que não conseguiam lhes negar
pedidos", explica Márcia.
A comilança de Natal e durante as férias, por exemplo, tem reflexo
nos hospitais veterinários. O Sena Madureira registra um aumento de 20%
no número de internações nesse período. "Em dias de festas, o ideal é
orientar os convidados a não oferecer alimentação aos animais", explica
a veterinária Fernanda Fragata.
Afinal, a luta para colocar em forma pets obesos é dura. Exige
disciplina e comportamento espartano de todos os envolvidos no
processo. "Brinco que amor demais engorda. Todo cão obeso é pidão",
conclui a professora Márcia. "Mas, pela saúde do próprio, é necessário
blindar o coração e não ceder aos apelos." O resultado vai aparecer na
balança. Cuidar da saúde do animal de estimação também é um gesto de
amor.