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    • 06 JUL 14
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    Hospital Veterinário Sena Madureira em destaque no especial sobre Pets na Capa da Revista São Paulo e Folha de São Paulo

    Expectativa de vida de cães e gatos dobrou nos últimos 30 anos. Lembra-se quando lugar de cachorro era no quintal? Não faz tanto tempo, eles comiam os restos de nossa comida e a maioria tinha acesso livre, no máximo, até a cozinha.

    Essa maneira de ver os bichos é tão anos 1980 quanto os discos da Cindy Lauper e o sistema operacional DOS. Hoje, cães e gatos coabitam conosco em todos os ambientes da casa. Várias mudanças na vida dos humanos podem ser dadas como explicação para o fenômeno: mais pessoas vivem sozinhas, há mais casais sem filhos e muito mais gente mora em apartamento. Mas o fato é que os laços afetivos se estreitaram, ao ponto de se falar em “famílias multiespécie”.

    Se os bichinhos nos ajudaram a amenizar a solidão, eles foram também os mais beneficiados com essa proximidade: passaram a viver mais. Muito mais. Um levantamento do hospital veterinário Sena Madureira mostra que dos anos 1980 até hoje a expectativa de vida dos mascotes domésticos deu um salto.

    Praticamente dobrou na amostra estudada, que considerou os 120 mil cães tratados desde 1980 no local, na Vila Mariana (zona sul).

    Cães de pequeno porte, que chegavam, em média, até os 9 anos de idade, hoje alcançam os 18. Os grandões já vivem normalmente até os 13. Com os gatos, a mesma história: passaram a viver 20 anos. A façanha, que nos animais levou meras três décadas, nos humanos demorou quase um século.

    “Houve uma mudança drástica. Com o contato maior do animal dentro de casa, qualquer sintoma é percebido pelo dono rapidamente”, diz o diretor do Sena Madureira, o médico veterinário Mário Marcondes, 37. Ou seja, se o bichinho tossiu diferente, já estamos lá correndo ao veterinário para descobrir se não é nada grave. Além disso, como as vacinas são anuais, a visita ao veterinário também é feita com a mesma periodicidade, então fica mais fácil perceber se algo vai mal antes que o problema se agrave.

    Essa atenção toda, somada aos avanços da medicina veterinária e à alimentação balanceada, explica a vida mais longa de cães e gatos. Assim como os humanos, quanto mais velhos, mais propensos a doenças ligadas à idade, como pressão alta, catarata, artrose, demência, insuficiência cardíaca e renal.

    A população de animais idosos cresceu, e donos zelosos têm mudado a própria rotina e investido fatia grossa da renda mensal no bem-estar desses anciões peludos. Que o diga a bancária Cristiane Adelaide Pereira, 41, dona de Johw, um poodle de 16 anos.

    “Eu não imaginava que ele ia viver tanto assim”, diz Cristiane, ao descrever os cuidados diários com o animal, que inclui dar seis comprimidos de manhã e seis à noite para o poodle. Johw também tem um problema cardíaco e foi diagnosticado com um tumor recentemente, mas a dona preferiu não submetê-lo à quimioterapia por causa de seu estado frágil de saúde.

    Além dos comprimidos, a bancária só compra ração especial para cães com problemas no coração, a um custo aproximado de R$ 300 ao mês. Isso fora as consultas a cada 90 dias, que, junto com os exames de rotina, saem por R$ 500.

    Para não arriscar complicações, ela também adiou o projeto de juntar as escovas de dente. “Eu ia me mudar com meu namorado. Mas, por ora, o plano está adiado. Não quero mexer na rotina toda do Johw.”

    Cristiane também desconsidera a eutanásia. “Apesar de muita gente ter me falado, eu nunca pensei em sacrificar. É meu companheirinho, faz parte da minha família, é como um filho.”

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    Essa mudança nas relações entre humanos e animais é objeto de estudo da veterinária e doutora em psicologia Ceres Faraco, 61. “Quando me formei, em 1976, os animais eram eutanasiados quando chegavam a certa idade e precisavam de mais cuidados do que as pessoas estavam dispostas a dar. Tratamentos eram a exceção.”

    Ceres usa o termo “família multiespécie” para designar essa nova convivência. “As famílias mudaram e, mais do que laços de sangue, hoje contam os vínculos afetivos.” Dentro desse novo conceito de relações familiares, o animal deve, segundo a veterinária, ser considerado parte da família. “Muitas pessoas são contra isso, mas é um fato.”

    Até o papa Francisco já notou a disseminação desse fenômeno. No começo deste mês, o sumo pontífice ironizou, durante pronunciamento na praça de São Pedro, no Vaticano, os casais que não têm filhos e preferem os animais de estimação.

    “O movimento vegetariano, as famílias menores ou sem filhos e o crescimento da longevidade são questões sociais que explicam esses novos vínculos. Os animais podem ser tão significativos quanto outros membros da família, na perspectiva da psicologia e da própria constituição do self”, diz Ceres.

    Mas há quem ache que cachorro é cachorro e deve ser tratado como era antigamente. “Ainda há grupos contrários. Existe um conflito, como há em outras questões sociais.”

    Alheia a toda essa discussão filosófica, a advogada Márcia Regina Campos, 59, continua a cumprir seu papel de fiel protetora de Tutti, uma fox paulistinha de 16 anos que, depois de desenvolver diabetes e superar dois cânceres, sofreu um AVC no começo do ano. Agora, Tutti acorda a dona a cada duas horas, porque não consegue mais chegar sozinha até o jornal para fazer xixi. “Ela ficou desorientada”, diz Márcia, sem esboçar qualquer impaciência.

    Meio confusa também ficou a vira-lata Gertrude, adotada pela veterinária Fernanda Harry, 33, há quatro anos. De uns dois meses para cá, a cachorrinha de cerca de 16 anos, que era um anjo, passou a roer as roupas da dona e a fazer xixi e cocô onde lhe dá na telha. “Virou filhote depois de velha”, diz a dona, rindo.

    Fernanda acredita que o comportamento se deve a problemas cognitivos associados à velhice.

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    O “Alzheimer canino”, como foi apelidado, também conhecido como demência, é relativamente comum, mas quem tem animais de estimação não precisa se desesperar. Com o avanço da medicina veterinária, o problema, como quase todos os mencionados nesta matéria, costuma ter tratamento.

    Além disso, há diagnósticos que não eram disponíveis antes, como ecodoppler, para descobrir problemas em válvulas do coração, e exames de sangue ultrarrápidos que detectam desde anemias a insuficiências hepáticas e renais.

    Mas, com alguma sorte, o animal pode viver por muitos anos sem grandes problemas. Como a old english sheepdog Molly, de 14 anos (bem velhinha para uma cadela de grande porte). Tirando a artrose em uma das patas traseiras e a catarata dos olhos, que a deixa um pouco mais quieta, ela é a mesma. “A Molly está me surpreendendo. A única diferença é que a ajudo a descer a escada do quintal para tomar sol”, diz a dona, a psicóloga Angela Visconti, 57.

    Há, porém, uma diferença, mas apenas estética. Como Molly tem os pelos longos característicos da raça, ela passou a adotar um “penteado” novo. “Baixamos o comprimento da tosa, porque ela não consegue ficar de pé tanto tempo na mesa para secar e pentear os pelos”, diz William Galharde, gerente de estética da rede de lojas varejistas Pet Center.

    Galharde afirma que o ideal é que os animais idosos sejam tosados por dois profissionais. É que os velhinhos, como Molly, têm mais sensibilidade nas articulações por causa de doenças como artrose. Precisam que um tosador os segure enquanto o outro levanta uma patinha para cortar o pelo, por exemplo. Dos 16 mil banhos mensais dados na rede, 4 mil são de animais idosos (acima de oito anos de idade).

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